sábado, 10 de outubro de 2009

PARA TUDO! OBAMA É PRÊMIO NOBEL DA PAZ??? (MAS... E EU? FICO COMO?)


Gente, não é por nada, sabe. Mas hoje estava indo trabalhar, num super mau-humor, óbvio, quando me deparei com a notícia: Barack Obama é prêmio Nobel da Paz. Nhé. Desculpa. Ele é um puta cara, teria votado nele com certeza, é bonitão (sei que isso não tem nada a ver, hahahaha) e está fazendo o que pode, mas Nobel da Paz? Ai, gente, pelamor. Se tem uma coisa que o cara não tem e não promove é a paz, meu povo! O país que ele governa está envolvido em duas guerras (Afeganistão e Iraque, e não me venham dizer que essas guerras acabaram, please). Não que ele não queira a paz entre os povos, mas isso a minha vizinha, dona Eonice, uma linguaruda fofoqueira também diz que quer, uai. E digo mais: ele disse que vai doar o prêmio de U$ 2.500.000,00. Sinceramente: você acredita num homem desse? Ah, por favor, ele não está batendo bem. Dizer que vai doar toda essa grana no meio da crise que o país dele tá passando? Ele não tem medo do desemprego, não? E a popularidade do bonitão está a pior desde que ele foi eleito. Sei, sei. Se eu ganhasse esse dinheiro todo e dissesse pra minha mãe que iria doá-lo, ela me internaria, com certeza, e com toda a razão. Dá pra confiar num meliante desse? Deus me livre.

Promover a paz é muito difícil, sabe. Imagino que para concorrer ao Nobel, o presidente dos Estados Unidos deva ter feito grandes coisas. Mas eu também já fiz, vejam: Sou professora, vocês bem sabem. E dou aulas para crianças, também. Meu Deus, como é difícil manter a paz entre elas! Sem falar da nossa paz interior que, dependendo da criança que nos cerca, vai embora e nem olha pra trás. Pois bem. Certa vez estava dando minha aulinha, semivirada de costas para os meus alunos, quando senti uma certa movimentação dentro da sala. Quando criei coragem para ver o que estava acontecendo, vi dois alunos, Henrique e Mateus (vejam os nomes de santinhos) se pegando, se batendo, se xingando. O Henrique estava com dois dedos enfiados nos olhos do Mateus que gritava "Eu vou te matar, seu gordo fedidoooooooooooo", "sua mãe tem pelo na tetaaaaaaaaaaaaaaa"... Vejam que clima de paz e harmonia a gente não vê entre os povos, não é mesmo? Minha reação? Como boa promotora da paz, comecei a rir, óbvio, mas percebi que o garoto poderia ficar cego. Não é uma coisa que eu desejo às pessoas, pelo menos não sempre. Então resolvi me meter na briga. Comecei falando baixo, pedindo aos outros alunos (que pareciam mais apostadores em briga de galo) que se afastassem, pedi encarecidamente para que eles parassem de brigar, que cegar alguém não leva a nada, que eu estava muito triste e decepcionada e bla bla bla. Nada adiantou. Alterei meu tom de voz consideravelmente, mas com educação, dizendo que chamaria os pais ou responsáveis dos dois meliantes se não parassem imediatamente com aquela putaria (sim, usei esses termos), nada. Foi quando me bateu a síndrome de batman que só me ataca quando bebo e fui com a cara e a coragem apartar a briga. Tomei socos, levei pontapés, arranhões, puxões de cabelo, mas participei ativamente do reencontro daqueles dois filhos de Deus com a paz. Minha roupra ficou rasgada, cortei a boca, quebrei duas unhas, mas oxalá todos fossem pela paz como eu sou.

Agora me diz: por acaso Barack Obama foi participar ativamente da guerra? Algum de vocês já ouviu falar da quele homem bonitão e elegante saindo de uma briga parecendo o Belchior como eu fiz? Pois é, não. Ficar falando da paz, da paz, da paz e bla bla bla é fácil, minha gente. Vai propagar a paz numa escola do Estado aqui em São Paulo. Aí sim é que são elas.

Por isso mesmo é que começo uma campanha: Nobel pra Manu! gente, tenho um bacuri pra sustentar, sabe. Sou professora, o salário não deixa ninguém rico, depois de amanhã é Dia das Crianças... 2 milhões de dólares cairiam tão bem... e, desculpem, mas não vou mentir: não vou doar nem um centavo, não. Posso até pagar cervejada pros meus amigos, ajudar alguns poucos que merecem (sim, porque minha vizinha, Dona Eunice, por exemplo, não vai ganhar nem uma paçoca rolha), mas doar? Há. É ruim, hein.

Ah, vamos lá, vai, gente. Pelo menos eu sou sincera.

Vota ni mim?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram...
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE! Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer: - E daí? EU ADORO VOAR!

Clarice Lispector

domingo, 4 de outubro de 2009

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata. "

Clarice Lispector
"SEM AMOR, SÓ A LOUCURA"

Caio Fernando Abreu

AMOR E DESAMOR

Inesperada, encarou-o pedindo. Dentro do ônibus que corria para um destino com a segurança dos que sabem para onde vão, ela de repente se assumiu em fêmea e simplesmente pediu. Seu primeiro movimento veio marcado de espanto, pois que pedia pura, motivada apenas pelo desejo de receber. Depois adentrou em si, recusando, negando a solicitação no Ônibus superlotado de fim de tarde -e, no entanto ainda pedia, mas dissimulada, tomando-se pouco apouco cínica na maneira esquiva de olhar.Espiou pela janela, curvando-se um pouco, quase a tocá-lo. A natureza de fora do ônibus escorria cinzenta, meio amorfa, desfeita em tons que não chegavam a se afirmar em cores. Dentro, escorria também, sem conseguir a nitidez de qualquer palavra. Subira no ônibus tão despreparada, disse baixinho, procurando encontrar a exclamação que não existia. E súbito, o homem estava ali. De óculos, entradas fundas no cabelo, olhando perdido pela janela. Era bonito? Sacudiu a cabeça em negativa de indecisão, como explicar, como formular que ele apenas era, sem adjetivos, era, estava sendo, embora sem saber, sem esforço algum -era. E ela pedia. Quebrava-se toda por dentro num movimento entre pudor e medo, voltando a cabeça para espiá-lo a seu lado, as mãos postas em repouso sobre as calças beges claro. Ah como doía solicitar tanto e ir-se tornando cada vez mais lúcida dessa solicitação.Tentou voltar ao primeiro susto, mas percebeu que este jamais se bastaria em si. Era o desassustado começo do medo e o resto se faria caminhada lenta de olhar para trás, para os lados, a ver se não estava sendo vigiada. Impossível, pois, voltar ao impacto primeiro, que era um nada de exigência não-doída porque desconhecia a si mesma. A compreensão que atingindo, doía. Nesse doer, ela começava a soer, imprecisa e vaga. Suspirou ajeitando os cabelos que prendera na nuca, preguiçosa de pentear-se porque não previra o encontro.Impassível, o homem ao lado. E já não mais era capaz de defini-lo: ele se transformara no que ela sentia. Ia além dessa compreensão, percebendo sábia que o seu sentir era tão dentro -e vago como as coisas interiores -que ela não poderia jamais o saber o em lucidez completa. Conseguia adivinhar o externo, nas o interno se perdia indefinido em sombras. O ônibus escorria no asfalto, o tempo escorria no relógio. Tudo ia em frente, ela se comprimindo cada vez com mais ardor. Ultrapassara o susto mas, temerosa te sofrer por amor, caíra na paixão. Absurda e mexicana e encerrada em si e independente do que a despertara: paixão. Pelo homem que era o objeto mais à não, com a mesma intensidade com que amaria o único coqueiro da ilha onde estivesse náufraga.De repente, se alguém a olhasse, ela perturbaria com sua turgidez ampla de fêmea em ritual de amor. Os olhos se haviam agradado, a boca fremia num aparente mistério, porque jamais alguém conseguiria compreendê-la ou aceita-la em sua quase obscenidade. Ela avançara rápido demais, e agora já não cabia dentro de si. Perdera-se completamente, os lábios mordidos e o frio do suor nas palmas das mãos a complicavam ainda mais. Irritava-se com as pequenas coisas que tentavam afastá-la de sua danação –a peruca loira da mulher em frente, os solavancos do ônibus, o vento que entrava pela janela aberta. Então quase odiava o que não contribuía para o amor desesperado gritando dentro dela.Foi aí que o ônibus parou e ela desceu. Não sabia se antes ou depois ou no lugar exato onde devia. Não sabia ainda se fugira ou se aceitara. Um carro passou, molhando-a da água da chuva que caíra à tarde. Era noite. Assoou o nariz. Esbarravam nela, o choque fazendo-a enrijecer-se numa tentativa de decifração. O ônibus ia longe, dobrando a esquina, a silhueta do homem confundida com as outras, não conseguia mais ligar os pensamentos, recordar em que caíra, e como caíra, e porque caíra. Enveredou lenta pela galeria, alcançou a escada rolante. Foi no meio da subida, o espelho refletindo seu rosto, que ela descobriu um ponto branco latejando vivo num lugar desconhecido. Preciso cortar os cabelos, pensou sem compreender. Ou sem querer compreender. Ou sem querer, apenas.

Caio Fernando Abreu

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector