
Ser mãe. Hoje quero falar sobre esse trabalho. Sim, porque é um trabalho. E como todo trabalho, tem suas coisas boas e suas coisas ruins. Quero começar pelas coisas ruins.
Primeiramente, os enjoos. É como se tivessemos comido uma salada de maionese estragada todos os dias. Acordamos enjoadas, vomitamos logo de manhã, uma delícia de vida. E logo começamos a respeitar as pessoas que acreditam em simpatias, fazemos qualquer coisa para ter nosso estômago de volta (sim, porque temos a impressão de tê-lo vomitado). Eu mesma tentei de tudo: tomei suco de limão puro, em jejum; comi bolacha água-e-sal logo que abri os olhos, ainda na cama; desmanchei uma rosa, pétala por pétala e depois joguei-as em água corrente, sem olhar pra trás, óbvio... uma humilhação. Claro que nada adiantou. Vomitei por 9 meses.
Também é importante falar dos desejos. Eu não acreditava nesse negócio de que as grávidas ficam com vontades repentinas de comer coisas estranhas, achava que era uma frescura, até que engravidei e tive meu primeiro desejo: palmito. Veja bem, palmito. Que ridículo. Liguei pra minha mãe do meu trabalho e pedi, desesperada, que ela fosse ao supermercado comprar palmito pra mim, senão eu iria morrer. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi comer os palmitos, um por um. Juro, quando vi aqueles palmitos, branquinhos, dentro daquela aguinha transparente, meu coração começou a palpitar, era como se eu tivesse me apaixonado pela primeira vez. tenho a sensação de que meus olhos até brilharam. Comi-os, um por um, delicadamente, separando aquela parte mais durinha que "protege" a parte mais molinha, comendo em pedaços pequenos para que demorassem pra acabar. Comi, comi, comi... acabaram. E quem disse que a vontade passou? Jamais. Entrei em desespero. Imagina se meu filho nascesse com cara de palmito? Depois de alguns momentos de reflexão olhando para o vidro de palmito, eis que me veio a libertação daquele desejo: eu não queria palmito, minha gente! Eu queria a águinha que estava no vidro! Que coisa mais digna! Peguei o vidro como se ele fosse de cristal Svarówski, com cautela, senti como se a cena estivesse em câmera lenta e bebi... bebi aquela água santa! Até hoje minha boca se enche de água quando me lembro... ah, que alívio. Claro que nunca mais comi palmito.
Pois veja como é a vida. Tudo pode piorar. Meses depois, tive um outro desejo, mas muito mais forte do que o primeiro. Eu estava na faculdade, de manhã, já tinha vomitado o útero, quando meu professor de Literatura Portuguesa, César, tirou do meio dos seus livros um apagador (calma, eu não fiquei com vontade de comer um apagador!) e de dentro daquele apagador pixado e poeirento, ele tirou um giz. Um giz branco. Naquele momento não consegui mais pensar em nada, só no giz. Minha boca até tremia. Mas e a vergonha de pedir um giz pra comer? Não, pensei eu, tenho que ser forte, eu vou conseguir. Esperei até o último segundo de aula, coisa que nunca havia acontecido, na esperança de todos irem embora logo e eu pegar um teco daquele giz branco. Mas é claro que uma mula ficou tirando dúvidas depois da aula e eu não conseguia pegar o giz! Foi uma angústia na minha vida! Saí de lá uma hora depois de a aula ter terminado e peguei o giz! Na mesma hora enfiei-o na boca e mastiguei: que crocância, meu Deus! Que sabor de gesso maravilhoso! A única coisa ruim é que os dentes ficam sujos, muito sujos, mas naquele momento, eu nem me importava com isso. Comi o giz todinho e a vontade não passou. Passei em uma papelaria e disse: Você tem caixa de giz? E a mocinha disse, Tenho a caixa pequena e a grande, qual a senhora prefere?, sem titubear eu disse, A pequena, não sei se consigo comer tudo isso que tem a caixa grande. A menina rio tanto que não conseguiu mais me atender, pediu para outra menina que perguntou: A senhora quer colorido ou branco?, e eu disse Colorido, não. Eu quero sabor baunilha. Tinha que ser o branco! Isso é normal? Comi a caixa toda, em uma semana. Comia assistindo tv, antes de dormir...
Além de tudo isso, tem os chutinhos do bebê. No início do 5o mês, a gente já começa a sentir o bebê se mexendo, mas temos a impressão que são gases, superagradável, viu? No 8o mês o bebê já tá enorme e continua chutando. O problema é que o bebê cresce, mas o espaço dentro da sua barriga é o mesmo. Isso significa que ele vai chutar as suas costelas. Vai mesmo. E dói.
Também tem a fase em que você não cabe mais em nenhum lugar: nas roupas, no sofá, na cama... Nada, nada, nada comporta todo aquele volume de gente. Você vai do manequim 38 ao 44 sem grande dificudade. Deitar no sofá para assistir televisão... impossível. E pra levantar? É pura sensualidade! E o melhor de tudo é que nessa época começam os desfiles do São paulo Fashion Week, um monte de modelos esqueléticas na televisão e a gente com aquela boca inchada, usando Havaianas (nada serve além disso), com um vestido largo, andando com os braços meio desengonçados. Delícia! Sem falar no umbigo que fica pra fora, o banho que já não é o mesmo e... Que saudade que dá dos nossos pés! Ah, os pés! Quanto tempo sem vê-los!
Muito bem, o bebê nasceu, é lindo, saudável, graças a Deus! E, por isso mesmo, ele vai chorar de madrugada, vai ter cólicas, vai fazer cocô que empesteia a casa com o cheiro, você vai ficar sem dormir, seu peito vai ficar em carne-viva, sangrando, você vai tentar por aquele bico de silicone, mas o bebê não vai aceitar... Pensa que isso é ruim? Não, meu amor, a parte ruim nunca vem do bebê: vem das visitas. Ah, as visitas...
Pois bem. O seu bebê não vai deixá-la dormir, prepare-se. Mas tem sempre uma hora em que ele dorme e é nessa hora que você tem que dormir, tomar banho, comer, essas coisas que seres humanos fazem, mas você só vai ter uma vaga lembrança disso. Você vai estar numa fase em que se acha horrível vestindo aquela cinta ridícula, sem dormir, sem beijar na boca e sem sair de casa, autoestima? O que é mesmo isso? Mas por um filho... vale a pena! É passageiro, daqui a pouco ele cresce um pouquinho e você vai ver que legal. Pois é. Voltando ao momento em que ele dorme e que você, também, quer dormir. Você vai se arrastando até a sua cama, encosta a cabeça e... acorda! É a campainha! SURPRESAAAAAAAA!!!!! SÃO AS VISITAAAAAAS!!!!!
Não sei se dá mais vontade de chorar ou de matar, juro. Elas vêm na melhor das intenções, fato, mas e daí? E sabe o que é o melhor? Você tem que fazer um cafezinho, assar uns pães-de-queijo, descongelar o presunto e sorrir! Que sacrifício que é sorrir nessas horas. Há aquelas visitas que percebem que você está cansada e vão embora depois de duas horinhas só, mas há aquelas que adoram criança e que ficam três, quatro horas... E você lá. Sorrindo. Eita raça. Há também aqueles que vêm 4 vezes por semana. Me explica: pra quê??????? O que é que você pretendia fazer mesmo? Dormir? Nesse meio tempo, o bebê já acordou, já mamou, seu peito já sangrou de novo... Detalhe: as visitas estão na sala. Quer um conselho? Não atenda (vide texto "A Arte de Evitar Pessoas).
Tem aqueles dias em que o bebê está mais calmo e você pode dormir. Mas você olha ao redor e percebe que a sua casa está um chiqueiro, então você, ao invés de dormir, resolve limpar a casa, passar um aspirador, sei lá. Você tira todos os móveis de lugar, joga água, passa cera, tira o pó... a casa fica uma zona, tudo fora de ordem e... toca a campainha. ADIVINHA QUEM SÃO? HUM? AS VISITAAAAAAAAAAAAAAS, EBAAAAAAAAAA!!!!! Ué, mas elas não ligam avisando que vêm??? Claro que não! Não é uma maravilha?
Não passa na cabeça das pessoas que a gente não quer ver gente nessas horas? Que visita tem que durar, no máximo, 15 minutos?
Depois de tudo isso, a noite, com um pouco de vontade de chorar de tanto cansaço, você chega perto do bebê e pensa: meu Deus, como sou feliz. Porque é exatamente isso que você é, simplesmente por ter um filho e, não importa o que virá, ele vai sempre te dar alegrias e vai ser seu maior e melhor motivo pra viver. Você vai pro quarto e vê que tudo vale a pena e dá graças a Deus por estar tão cansada, tão desesperada, tão sem dormir e tudo mais. Pensa: Bom, agora vou cochilar um pouco. E finalmente, ah, finalmente, dorme 5 minutos, ô maravilha, que sonão, hein? Deu até pra descansar! E ouve um chorinho. E tudo vai começar outra vez. Com um sentimento de culpa imenso, mas com uma sede de justiça deveras maior, você pensa: Ai dele se não me levar pra fazer compras, se não me levar pra Europa, se arrumar uma namorada vagabunda (todas são vagabundas quando se trata do nosso bebê - que já tem 35 anos, no caso), se não fizer cafuné em mim e se me colocar num asilo. Ai. Aí sim ele vai ver o que é uma mãe louca. Respira fundo. E vai ser mãe.


Um comentário:
Manuuuuuuu abre seu orkut, nao consigo te add rs
bjs
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