Casaram-se cedo. Ele tinha 23, ela 22. antes disso, namoraram por 5 anos. Uma pindura, nenhum dos dois tinha dinheiro pra nada. Foram morar na casa da mãe dela até encontrarem um apartamentozinho de aluguel, pequeno, em que coubessem as poucas coisas que tinham. Nem pensavam nisso porque ter um ao outro bastava.
Porém Ricardo, ele, sempre trabalhou muito e gostava de pensar que em um futuro não muito distante poderia dar a ela as coisas que naquele momento não podia.
Nesta época, era graça ir comer um cachorro-quente sentado da calçada nas noites frias do bairro da Lapa onde moravam. Era o que podiam fazer e era tudo tão divertido. Ele trabalhava em horário comercial, ela estava na faculdade de manhã, a noite estavam juntos e o dinheiro até dava para irem ao cinema aos sábados, mesmo que tivessem que economizar durante o mês todo para o dinheiro dar para as entradas e a pipoca.
O tempo foi passando e Ricardo conseguiu um emprego melhor. Ao invés de trabalhar por 9 horas, agora trabalhava por 11, mas as horas extras ajudavam a pagar a prestação do apartamento agora deles. Compraram-no para pagar em 12 anos, mas não havia problema: Não pretendiam se separar, mesmo. O tempo que passavam juntos era menor, mas agora podiam ir ao cinema e depois comer em um restaurante bacana no Bixiga. E agora tinham um carro bom que não daria trabalho e não quebraria no meio da Marginal Pinheiros como costumava acontecer.
Estabilizado no trabalho, Ricardo começou a querer trabalhar mais. Também não tinha outra escolha: Seu chefe exigia demais dele, tinha que cumprir muitas horas extras. Mas o dinheiro era bom. Sua mulher não se importava. Pensava em como eram duras as coisas no começo, em como ela sonhava com as roupas, sapatos, passeios que agora podiam ter - juntos. Passava a semana toda esperando pelo sábado, quando poderiam escolher os lugares, os filmes que assistiriam ou talvez ficar em casa, mesmo, vendo TV, planejando a vida, como sempre fizeram.
Anos depois, a vida já estava bem mai fácil pra eles. Ricardo já podia investir seu dinheiro e não se preocupava mais com isso. Comprara outro carro, um apartamento maior, um telefone melhor, de última tecnologia. Mas que não parava de tocar. Não raro estava em casa durante a noite, sábado e feriados e seu celular BlackBerry tocava. Precisavam dele lá. Trabalho. Era dinheiro, não é? Bom para o futuro do bebê que estava chegando depois do tratamento que fizeram, caríssimo, inseminação artificial. Coisa que jamais teria sido possível se não trabalhassse tanto. Conseguira realizar o sonho da mulher e dele. Caro, sim. Mas que preço tem um sonho?
Hoje, aos 38 anos, Ricardo já teve princípio de infarte. Não se lembra quando foi a última vez em que saiu pra jantar com a mulher, tampouco quando foi a última vez em que sentaram-se na calçada para comer um cachorro-quente barato. O filho está com dois anos. Esses dias, chegou em casa e o menino estava andando e começando a balbuciar as primeiras palavras. Pra ele foi novidade: Quando foi que ele começou a andar?, perguntou Ricardo à mulher. Há uns 6 meses, disse ela. Ricardo não sabia de nada disso. Também não sabia que sua mãe estava muito doente. Sabia sim que ela precisou de dinheiro para um tratamento "qualquer" e não pensou duas vezes em deposita-lo na conta dela quando ela pediu. Não sabia que a mulher queria ter outro filho e nem que ela teve depressão pós-parto. Não sabe também que a mulher tem saudade da época em que eles podiam, juntos, sentar na calçada e comer um cachorro-quente barato. Desconhecia o fato de que seus amigos se casaram, se separaram também. Quando essas coisas aconteceram, ele estava muito ocupado pensando no futuro da família.
Família?
Entrou no quarto naquela noite, sentou-se na cama, ligou o laptop, colocou-o no colo e, ouvindo o choro do bebê e as bricadeiras que fazia com a mulher, sentiu-se só.
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2 comentários:
Todo mundo tão diferente e tão igual ao mesmo tempo...
O importante se perdeu em algum lugar...
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